Um Teto para meu País

Participei de uma ação da organização social Um Teto para meu País, um mapeamento de casas em situação vulnerável na comunidade do Morro do Kibon, em Santo André. A Teto trabalha com construção de moradias emergenciais, com o suporte de empresas, que patrocinam a compra dos materiais, e a ajuda de voluntários, que montam as casas pré-fabricadas. O projeto nasceu em 1997, no Chile — por lá, já são cerca de 40 mil residências construídas — e se espalhou por 19 países da América Latina. No Brasil, espera-se chegar à casa mil até o fim do ano.

A atividade que realizamos é a primeira parte do processo: conversamos com as famílias e aplicamos um questionário socioeconômico, que serve para a equipe de planejamento determinar quais estão em maior risco, quais têm as condições de participarem das próximas construções. Se selecionada, a família é contatada e se compromete de duas formas: paga 5% do valor da casa (R$150) e deve construir também, juntamente com os voluntários. As moradias são pré-fabricadas, e o trabalho de montagem é feito em caráter intensivo, em um fim de semana.

A cada formulário preenchido, uma nova história, uma situação distinta. Uma senhora mora com oito filhos e um neto. Sua renda soma apenas a pensão de um deles, que é deficiente — um salário mínimo — e o auxílio do Renda Cidadã, cerca de R$80. A casa tem três cômodos (cozinha, banheiro, quarto). O chão de cimento tem pelo menos dois grandes buracos, um na cozinha e outro no quarto. As paredes deixam entrar o vento, pelas fendas na superfície (e também por um buraco, ao lado de uma das camas, coberto por uma cortina). O pé das paredes está podre, segundo ela, por causa da água das chuvas.
Um senhor, desempregado, vivendo de bicos (pedreiro, eletricista, encanador…) depois de muitas mudanças e do falso alarme de um (“Desculpe usar essa palavra”) câncer, mora agora em um bar, com sua filha pequena e sua mulher. O bar está atualmente fechado e é propriedade da sua cunhada. Ele tem um terreno em outra parte da comunidade, mas não tem o dinheiro para construir nada: só deixou umas estacas de madeira fincadas para marcar o território. Critica o prefeito Aidan Ravin (PTB, mas o senhor pensava que era do PSB): “Se eu fosse na Prefeitura pedir material e fosse o governo do PT, eles me davam”, diz. Critica o Bolsa Família: “O que vou fazer com R$100, isso não me ajuda, o que precisam dar é emprego. Isso de bolsa só deixa o povo preguiçoso”.

No ponto mais alto do morro, com vista para milhares de casas de Santo André, para montanhas e um lago azul escuro, próximo a um campinho de futebol à beira do precipício, um coletor, cujo salário é de R$800, expõe seus planos de reforma. Sua casa só tem a frente de madeira — quarto, banheiro, parte da sala já é de alvenaria. Orgulha-se visivelmente de ter feito tudo por si. Pretende construir a parte da frente, um quarto para o filho de 16 anos, uma garagem, muros ao redor da casa. Sugerem, ele e a mulher, que entrevistemos um outro morador, porque ele precisa mais.

E outras histórias, assim como todas as outras vividas pelos demais voluntários. Ao fim do dia, sob um frio desgraçado, a equipe parecia gratificada. São pessoas que parecem acreditar na relevância do trabalho que fazem, mesmo o sabendo pequeno, se comparado com a calamidade social que se vê nas metrópoles. São em sua maioria universitários paulistanos, e podem ser encaixados na definição de “jovem-ponte“, conforme apresentada pela O Sonho Brasileiro, pesquisa sobre o ideário atual da juventude e as novas tendências de envolvimento político e social, diferentes, segundo a pesquisa, das épocas precedentes.

Devo participar de outras ações da ong (se quiser ir junto, manda email, rapaz!), ao mesmo tempo em que pesquiso sobre outras organizações sociais — tenho explorado o Jumo, uma rede social que reúne apenas grupos do gênero e ativistas. Para saber mais sobre a Um Teto para Meu País, leia “Universitários constroem casas em favela“, feita pelo projeto Empreendedor Social, da Folha.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s