Arquivo da categoria: Crônica

Sinto Saudade de Estar Triste

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Publiquei no Digestivo Cultural a crônica/artigo Kurt Cobain; ou: I Miss the Comfort in Being Sad, um texto em homenagem aos 20 anos do suicídio de Kurt Cobain. Trata de juventude e dos modos de viver a poesia. Eu escrevi:

Talvez por isso a maior suavidade, o máximo de felicidade conhecido por Kurt tenha ocorrido quando se sentia indiferenciado, “simplesmente admitido”, como diz o poema de Borges. E o máximo de solidão no oposto complementar, quando se sentia individualizado demais, marcado. “All Apologies” é o resumo mais conciso disto; um de seus versos tem duas versões: all in all we are, ou seja, nós nos confundimos no todo, e all alone is all we are, somos sempre separados, inconciliáveis. Ele viveu na tensão entre estes dois pólos, quando foi reduzido a um deles, não pode mais seguir.

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É Preciso Dizer: me Orgulho

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Publiquei no Digestivo Cultural a crônica Margarida e Antônio, Sueli e Israel, um texto sobre memória, trabalho, política e origens, histórias do meu avô Antônio, minha avó Margarida, meu pai Israel e minha mãe Sueli (a foto que ilustra este post é um quadro da minha avó). Eu escrevi:

Eu acho, pelo contrário, que é preciso saber dizer: me orgulho. É justamente pela sua habilidade política que as pessoas de origem “ilustre” dão à sua origem esse adjetivo. Não que seja o caso de dizer que toda origem é ilustre, a questão é que a suposta ilustração é a parte menos importante – origem, a mais. A originalidade de cada percurso até o meu percurso particular são relações com (e apesar de) a cultura, a economia, a sociedade. É preciso dizer: me orgulho.

Fins de Ano

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Publiquei no Digestivo Cultural a crítica/crônica/artigo Texto Otimista de Fim de Ano, sobre Marcel Proust, Jim Carrey, Woody Allen, jornalismo — e fins de ano. Eu escrevi:

Em alguns momentos, o jornalismo atinge o nível do arquétipo: nas notícias que não são notícias, que apenas confirmam o mundo. Cumprimos o ano e lá estão as pessoas (as mesmas pessoas?) comprando de última hora presentes de Natal (é o mesmo Natal?), se engarrafando para ir à praia no Ano Novo (o velho ano novo?). Se as redações fechassem e vídeos antigos fossem exibidos, ninguém notaria. É um tempo parado. Nada acontece, só o que já aconteceu. A retrospectiva por fim comprime 52 semanas em 60 minutos. Estamos em dia. 2014 está já esquartejado: logo Carnaval, logo Páscoa, logo Copa. Abre-se dessa forma o espaço para textos otimistas de fim de ano.

Este é um texto otimista de fim de ano. Diz: tudo é possível. Mas tudo, tudo mesmo.

Julinho, o Rato

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Publiquei no Digestivo Cultural a crônica Diário de Rato, Chocolate em Pó e Cal Virgem. Eu escrevi:

Erguemos as barricadas: é preciso isolá-lo. Uma placa de madeira serve de bloqueio para a saída da cozinha à sala. Um tijolo tampa o buraco no canto direito inferior da porta fechada do banheiro. Onde ele pode estar? No fogão. No balcão da pia. Debaixo da geladeira. Levo uma luminária arrastando a extensão até lá. Ilumino cada canto como o holofote das prisões de filme americano, mas a mancha de luz não o denuncia. Não está em lugar nenhum. Você tem certeza de que viu? O rato põe o cotidiano entre parenteses (…)

Ônibus

Marginal TietêPubliquei no Digestivo Cultural a crônica Manual para o leitor de transporte público. Eu escrevi:

O ônibus segue a dois centímetros/hora, mas a tensão do trânsito paulista não me engole e é feito Haroldo de Campos que escapo: “o livro me salva me alegra me alaga“. Como, onde, quando é que você lê, leitor? Eu geralmente só leio no transporte público, nas duas ou três ou quatro horas (de acordo com o humor de São Paulo) em que passo indo de lá pra cá. Não chego a agradecer a deus por um congestionamento, como se diz de José Mindlin, mas ler me mantém sadio e eu não penso em comer os olhos de ninguém quando uma passeata para a Consolação e a Paulista fica imóvel do Paraíso àBela Cintra. Não, não. Estou longe. Sou quase um monge budista, de vez em quando olhando os sem-livro incompreensíveis.

O texto tem as marcas de duas outras atividades na época: a produção do site Ocupação Haroldo de Campos e a leitura de Madame Bovary. Os percursos narrados são os que me levavam para o curso de Filosofia, na USP.