Arquivo da tag: Jornalismo Cultural

Cifra os Afetos, Faz Dança

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Publiquei no Digestivo Cultural a crítica MPTA, Dança feita de Afetos Condensados, sobre os espetáculos de dança Nós Somos Semelhantes a Esses SaposAli, do grupo francês MPTA. Eu escrevi:

O mais impressionante das duas peças é sua capacidade de representar sentimentos e processos com signos concisos, descrever o essencial de certos tipos de relação com ciclos sutis de gestos. O MPTA é atuante desde 2001; Nós somos semelhantes a esses sapos…, de 2013, foi concebida por Ali e Hédi Thabet; Ali, de 2008, é encenada por Mathurin Bolse e Hédi Thabet. Por aqui, as peças foram montadas na 1ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, que ocorreu de 9 a 16 de março e trouxe à cidade espetáculos de vários países do mundo e um ciclo de debates. Abaixo, tentamos exibir como a companhia condensa e cifra os afetos, e os faz dança.

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Fins de Ano

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Publiquei no Digestivo Cultural a crítica/crônica/artigo Texto Otimista de Fim de Ano, sobre Marcel Proust, Jim Carrey, Woody Allen, jornalismo — e fins de ano. Eu escrevi:

Em alguns momentos, o jornalismo atinge o nível do arquétipo: nas notícias que não são notícias, que apenas confirmam o mundo. Cumprimos o ano e lá estão as pessoas (as mesmas pessoas?) comprando de última hora presentes de Natal (é o mesmo Natal?), se engarrafando para ir à praia no Ano Novo (o velho ano novo?). Se as redações fechassem e vídeos antigos fossem exibidos, ninguém notaria. É um tempo parado. Nada acontece, só o que já aconteceu. A retrospectiva por fim comprime 52 semanas em 60 minutos. Estamos em dia. 2014 está já esquartejado: logo Carnaval, logo Páscoa, logo Copa. Abre-se dessa forma o espaço para textos otimistas de fim de ano.

Este é um texto otimista de fim de ano. Diz: tudo é possível. Mas tudo, tudo mesmo.

Quem Vê, O Que Vê, Como Vê

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Publiquei no Digestivo Cultural a crítica Fotonovela: Sociedade/ Classes/ Fotografia, sobre a exposição com esse título realizada pelo Itaú Cultural. Eu escrevi:

A exposição Fotonovela: Sociedade/Classes/Fotografia traz uma seleção de trabalhos que dilui algumas oposições típicas – verdadeiro e falso, fantasia e realidade, sujeito e objeto – ao mesmo tempo em que exibe os contrastes em situações e classes sociais que parecem coesas. O que se problematiza, em resumo, é a ideia de representação: essa noção é tensionada e desmontada, assim dando a ver não só o que está “por trás” da representação, mas também aos lados, acima e abaixo, e, é claro, em frente: nós – o modo como vemos as coisas – também somos tematizados.

Estado de Crise

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Publiquei no Digestivo Cultural a crítica Coro dos Maus Alunos, sobre a peça com direção de Tuna Serdezello, montada pela Cia Arthur-Arnaldo. Eu escrevi:

Coro dos Maus Alunos, peça que esteve em cartaz no Centro Cultural São Paulo neste outubro, narra os conflitos deflagrados em uma escola com a vinda de um professor com métodos inovadores – sua temática é a das dificuldades de ensino e aprendizado, das distâncias entre educadores e alunos, da apatia e violência dentro das escolas. No fim das contas, a montagem faz um bom tratamento de ideias sem novidade; o roteiro consegue renovar os clichês de que faz uso, mas é principalmente graças à atuação e aos recursos cenográficos utilizados que o conjunto ganha cor. Luzes e sombras, projeções, usos do som – cenograficamente, consegue-se evidenciar o problema central do tema: as visibilidades de um estado de crise.

Brutalidade Técnica

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Publiquei no Digestivo Cultural a crítica American Horror Story: Asylum, sobre a série televisiva com esse título. Eu escrevi:

A segunda temporada de American Horror Story (subintitulada Asylum), série competente de terror exibida pelo canal a cabo FX, traz duas ideias interessantes, ou melhor, seu roteiro é fundamentado em duas noções. Primeira, a de que o saber é uma forma de poder: o conhecimento sobre como as coisas “são” ou “devem ser” permite dispor veredictos sobre as pessoas, incluir, excluir, destruir, isolar. O ambiente da história é um manicômio na primeira metade do século XX – exemplo sempre mais do que intenso de como palavras que ostentam técnica e trabalho podem esconder cegueiras: medicinapsiquiatriasegurança pública. Segunda, a de que o “mal” é constituído também por uma fragilidade, isto é, atrás da brutalidade, há carência, frustração, descompasso. De certa ótica, ambas são a mesma: a força esconde a fraqueza, a fraqueza gera a força.

Antesala dos Relacionamentos

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Publiquei no Digestivo Cultural a crítica Todas as Tardes, Escondido, Eu a Contemplo, sobre o espetáculo de dança Todas as Tardes. Eu escrevi:

Todas as Tardes, solo de dança interpretado por Sílvia Geraldi, ocorre na antesala dos relacionamentos. A comunicação de que a atração existe, a negociação para o avanço, a sinalização de que se está satisfeito: os movimentos de um jogo de tabuleiro, cálculo e emoção, emoção no cálculo e cálculo na emoção, percebidos pelo ponto de vista de um dos dois jogadores; ele, para quem o outro é uma janela aberta, porém uma janela aberta para o quê. No espetáculo, a coreografia descontextualiza gestos e põe a nu as tensões; e o texto, as poucas falas, descreve a paixão – que pretendemos explosiva, romântica – mais travada, mais engatinhante, mais incerteza.

Real + Irreal

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Publiquei no Digestivo Cultural a crítica Margarita Paksa: Percepção e Política, sobre uma exposição retrospectiva dessa artista argentina no Museu de Arte Moderna de Buenos Aires, o Mamba. Eu escrevi:

Paksa é uma criadora multimídia que fez parte da vanguarda artística argentina da década de 1960, tendo estado entre os artistas que orbitavam um dos centros da cultura portenha da época, o Instituto Di Tella. Esta vanguarda surgiu durante um período de efervescência comercial e cultural na Argentina – a instalação de grandes empresas americanas, a revolução de costumes que tem seu símbolo em 1968, a popularização da televisão, os ecos do regime revolucionário de Cuba – período que foi asfixiado pela ditadura militar. Esse cenário redundou em uma dupla radicalização, de acordo com a revista Enie: artística e política. Paksa é um produto e um dos destaques deste tempo.

A Vida é Imensa, o Homem é Pequeno

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Publiquei no Digestivo Cultural uma crítica sobre o filme As Aventuras de Pi. Eu escrevi:

A vida é imensa, deslumbrante e indiferente – e o homem é pequeno; eis o núcleo do filme de Ang Lee As Aventuras de Pi, adaptação do livro homônimo do escritor canadense Yann Martel, ganhador do Booker Prize de 2002. Essa ideia essencial transparece tanto no visual exuberante com que é retratada a natureza – em sua violência e sutileza – quanto no enredo, que conta a odisseia do rapaz indiano Pi, à deriva no meio do Pacífico, tendo como único companheiro um tigre branco. A história é narrada por Pi a Yann, com um adicional que estipula uma moldura religiosa a toda a narrativa: a sobrevivência ao longo de 227 dias, sob sol e solidão, contra a ameaça constante da fera, com um quase nada de recursos, é uma história que deve fazer com que Yann (e, por analogia, nós) acreditemos em deus.

Coisas da Vida

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Publiquei no Digestivo Cultural a crítica A Vida Acontece; ou: A Primeira Vista, sobre a peça com direção de Enrique Diaz e atuação de Adriana Lima e Drica Moraes. Eu escrevi:

A Primeira Vista é uma peça que trata das – como se diz? – coisas da vida. É engraçada, tocante, superficial, com um diálogo divertido e ágil bem tocado (…) Desconhecidas que se encontram por acaso e se aproximam por mal-entendidos, amantes de uma noite, amigas de longa época, desafetos pelas circunstâncias mas só fragilmente, porque alguma coisa permanece… acompanhamos essa aventura cotidiana e comum, e nós identificamos às vezes, pois há muito de nós no que é comum e cotidiano. Além da sensibilidade e da empatia, a montagem se lança também ao simbólico e à interpretação de como tocamos essa odisseia prosaica: do jeito que dá, com tanta incerteza, com alegria, com tristeza, com alegria e tristeza misturadas…