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Arqueologia das Notas

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Publiquei no Digestivo Cultural o artigo Retrato do Leitor Enquanto Anotação, uma experiência com uma edição de Macbeth, de Shakespeare — é possível, pelas anotações nas margens das páginas, perfilar o leitor anterior do texto? Eu escrevi:

Há vestígios de sua passagem: anotações à lápis nas bordas das folhas. O que é que buscava ou o que é que descobriu na obra de Shakespeare? (…) Enfim, o que este qualquer descobriu da sua leitura de Macbeth é esse percurso do neutro, do possível, ao definitivo, ao inescapável. 

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Linchamentos Segundo a Sociologia

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Publiquei no Observatório de Imprensa o artigo Para compreender os linchamentos, um texto que apresenta as análises do sociólogo José se Souza Martins a respeito dos linchamentos, com base em uma pesquisa que abrange séculos da história brasileira. Eu escrevi:

Martins interpreta os linchamentos como “a ponta visível de processos sociais e da estrutura social”, sintomas de mudanças das hierarquias cultural e econômica, da corrosão da imagem do Estado e de um ideário político específico. Neste texto, resumimos as ideias de dois artigos do sociólogo: “As condições do estudo sociológico dos linchamentos no Brasil“ (1995) e “Linchamento: o lado sombrio da mente conservadora“ (1996), tentando sugerir pautas para futuras reportagens.

Protestos estudantis e Tendência

Publiquei no Observatório de Imprensa o artigo Cobertura enviesada dos protestos estudantis na USP, uma análise do noticiário da Folha de S.Paulo sobre a greve e ocupação dos estudantes da USP em 2013. Eu escrevi:

Folha de S.Paulo tem realizado uma cobertura parcial das atuais manifestações estudantis na USP, que se declaram por alterações no modelo de eleição do reitor e pela instauração de uma estatuinte (com poder para, por exemplo, extrair das estruturas da universidade ordenações herdadas da ditadura). A parcialidade da cobertura deve se tornar evidente com a interpretação seguinte.

Ações são Mídia

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Publiquei no Digestivo Cultural o artigo Passe Livre, FdE e Black Blocs – enquanto Mídia, um texto que enfoca três dos personagens que receberam destaque social após as jornadas de Junho: os black blocs, o Fora do Eixo e o movimento Passe Livre. Eu escrevi:

Esbocemos uma tese nem tão nova: as ações portam conteúdos narrativos e informativos; as ações são mídia, e, como diz a regra, implicam em reações, também midiáticas. Se assim for, nenhum ato ocorre sem estratégia nesse sentido. Os protestos de junho e correlatos nos dão três exemplos distintos disso. O Movimento Passe Livre (MPL) se dispôs no debate público como um tiro: pontual, compacto, específico, não pode ser diluído no jogo de interesses e ponto de vistas que soe ocorrer. A Mídia Ninja foi por sua vez como uma bomba de efeito moral: sua inserção no campo de atenção das pessoas gerou múltiplos e contraditórios efeitos, o maior deles o vazamento da discussão pela brecha do coletivo Fora do Eixo (FdE), quando explodiu e implodiu. Os Black Blocs, enfim, um homem que ateia o próprio corpo em chamas: indefinido e ao mesmo tempo muito bem definido, sem falar por ninguém, sem nem mesmo se preencher de sentido, obrigou a sociedade a formular sozinha os sentidos, em grandes consensos opostos. Mas as metáforas são só metáforas. Vamos aos fatos.

Protestos de Junho

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Publiquei no Digestivo Cultural o artigo Notas Obsoletas Sobre os Protestos, reações pontuais sobre os protestos de junho, mescla de não-ficção, filosofia e insights variados. Eu escrevi:

Na noite de 13 de junho, tive a impressão clara do que é viver sob uma ditadura, a exatidão de um símbolo: a Avenida Paulista varrida pela fileira compacta da Tropa de Choque, seus coturnos marcando de uma ponta a outra da via, veículos negros logo atrás em escolta. Do outro lado das telas, os coadjuvantes também éramos acuados, porém de um modo mais íntimo; como resistir? Esqueça os motivos atuais de protesto. Imagine a causa mais justa. A marcha a que assistimos ameaça inteira e idêntica qualquer uma delas, sem frestras entre os escudos, sem respiros na névoa de gás lacrimogêneo, gás de pimenta para temperar a ordem – tiro de borracha pra apagar cidadania.

Saia de Saia

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Publiquei no Digestivo Cultural o artigo Pô, Gostei da Sua Saia, sobre a manifestação Saia de Saia, sobre costumes e questões de gênero. Eu escrevi:

Espécie de flashmob sobre questões de gênero, o USP de Saia nos agregou todos à mesma manifestação. A ideia surgiu após um aluno, que costumava ir de saia ao campus, ter sido ofendido na internet. O protesto foi registrado pela imprensa. Não estive em grupo, nem fui ao evento maior; voltei quando deu 22h, retirando a saia antes de ir pegar o ônibus, não sem certo alívio do retorno à “normalidade”. Minha participação foi dessa curteza e sozinhez, mas sinto que me proporcionou, além da adesão individual a uma causa justa, que eu enfrentasse a resistência dentro de mim, para revelar qual o seu sentido. Minha revolução é pessoalíssima.

Crítica ao Jornalismo

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Publiquei no Digestivo Cultural o artigo Pesquisando (e lendo) o jornalismo. O texto parte de um incômodo meu sobre certa crítica automática à imprensa. Eu escrevi:

A crítica ao jornalismo e à mídia, em geral, me parece insuficiente, por não lidar com o seu objeto de uma forma completa, isto é, desconsiderando sua prática e tomando como foco de análise apenas a sua aparência final. Há uma distância entre o publicado e a práxis que leva à publicação, distância ou simplesmente ignorada ou exclusivamente abordada via paranoia – como nos discursos sobre Grandes Conspirações Midiáticas, que, se podem apontar para alguma verdade, distorcem e confundem por sua conta outra cota de dados. Como pesquisar de forma íntegra e consequente a imprensa? Eu tinha umas ideias soltas sobre isso, eis aqui um esboço de conclusão. O leitor não-jornalista, nessa era em que somos todos jornalistas, talvez encontre alguma utilidade, meios de pedir mais e melhor das “denúncias” eventuais. 

Limitações do Jornalismo de Mídia Social

Publiquei no Observatório de Imprensa uma tradução de The Problem with Tweeting a Revolution, de Jacob Silverman para a The New Republic. Com o título Os problemas em tuitar uma revolução, o texto trata das limitações das coberturas jornalísticas (?) feitas apenas através das mídias sociais. O autor escreve:

Durante os dias mais turbulentos dos protestos na praça Tahrir, Andy Carvin postou mais de mil tweets por dia. Ele se focou nisso em turnos de 18 horas, agregando e distribuindo informação de ativistas, rebeldes e jornalistas (cidadãos). Dormia apenas por necessidade biológica. Por tudo isso, Carvin, que é também estrategista sênior daNPR [National Public Radio], tem sido chamado “o homem que tuíta revoluções”. Carvin lançou recentemente um livro registrando esses dois anos em que – em que o que? Em que lutou nas trincheiras digitais? Em que produziu um Diagrama de Venn do ativismo de laptop e da agregação jornalística? A resposta não está clara porque Carvin é o exemplo mais proeminente de algo que pode mesmo nem ter um nome ainda.

Discussões Online: Modo de Usar

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Publiquei no Digestivo Cultural a crítica Discutir, debater, dialogar, com quatro pontos que considero muito úteis para que os debates na internet não sejam infrutíferos. Eu escrevi:

(…) a crença em um debate público do qual fazemos parte querendo ou não, participando através do nosso silêncio ou da nossa fala. Trata-se de uma malha de interconexões infinitas, e, se sou um ponto no circuito, posso qualificar o fluxo, interrompê-lo, encorpá-lo, modificá-lo.

Este texto ele próprio é um gesto nesse sentido, pulso elétrico que percorrerá tal malha de muitas maneiras e alcances, perceptíveis ou não. É difícil que você não compartilhe, portanto, da minha crença: as 131 palavras anteriores te atingiram, você provavelmente já se posicionou mesmo que só emocionalmente em relação às ideias essenciais que te passaram (o que seja minha personalidade, a visão de mundo que expus, a tese sobre o status desta coluna). Suas conclusões atuais e as posteriores são movimentos que tiveram ensejo por conta daquele pulso. Mudar, encorpar, interromper são escolhas suas. E assim por diante, de você aos outros.